...Povo do Mar trazendo alegria sobre as ondas do mar vem a navegar...
Espaço virtual dedicado para a educação e desenvolvimento humano através da arte, cultura e filosofia. Que bom seria se todos tivessem acesso a arte de qualidade, o mundo seria mais acolhedor.
sábado, 26 de novembro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
A Necessidade Da Arte (Ernst Fischer)
A Necessidade Da Arte
(Ernst Fischer)
(Ernst Fischer)
Ernst Fischer em A necessidade da arte revela-se um poeta, um esteta e grande crítico. Os assuntos foram subdivididos em cinco capítulos, os quais apresentam um incrível painel das artes desde os tempos mais primitivos. Segue uma síntese da visão de Fischer. A função da arte não está apenas no fato de levar o homem a conhecer e mudar o mundo, mas também por seu caráter mágico, pela magia que lhe é inerente. Desprovida desse resíduo de magia provindo de sua natureza original, a arte deixa de ser arte. Infere-se que a arte é tão antiga quanto o homem, e este, por princípio, um mago. Foi utilizando ferramentas que o homem se fez homem, produziu-se a si mesmo. Simultaneamente, o homem e a ferramenta passaram a existir, indissoluvelmente ligados um ao outro. O homem possui razão e mão, e foi a mão que libertou a razão humana e produziu consciência própria do homem. A eficiência é muito mais antiga do que o propósito; a mão é uma descobridora há mais tempo do que o cérebro. (Basta observar uma criança desfazendo um nó: ela não pensa, limita-se a experimentar. Só paulatinamente, a partir da experiência das mãos, é que vem a compreensão de como se fez o nó e do melhor modo de desfazê-lo). O homem primitivo ainda não distinguia claramente entre a sua atividade e o objeto ao qual ela se relacionava; as duas coisas formavam uma unidade indeterminada. Embora a palavra se tivesse tornado signo (não mais uma simples imitação ou expressão), uma pluralidade de conceitos cabia dentro desse signo. Só gradualmente veio a ser atingida a pura abstração. Em todo poeta existe certa nostalgia de uma linguagem mágica, original. A arte, em todas as suas formas, era uma atividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu caráter coletivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegro, total. A arte é uma realidade social. A sociedade precisa do artista, uma vez que ela capacita o homem a compreender a realidade, e mais ainda, a suportá-la e, ainda melhor, a transformá-la, tornando-a mais humana e hospitaleira para a humanidade. A visão de arte socialista leva vantagem sobre a arte burguesa. A despeito de todos os conflitos internos que vem sofrendo, o socialismo mantém inabalada a confiança nas ilimitadas possibilidades que se abrem para o homem. A arte socialista acena com a possibilidade de um mundo mais racional, mais humano. As lutas políticas entre os dois sistemas continuarão, mas é uma condição para a sobrevivêncvia de todos nós a de que se realizem sob a vigência da paz mundial. Para isso, é preciso que os homens de ambos os lados não falem no vazio, que cada um entenda os problemas do outro, seus ideais, seus anseios. Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo, Prometeu trazendo o fogo do céu para a terra, Orfeu enfeitiçando a natureza com sua música. Enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá.
sábado, 6 de agosto de 2011
O amor ou a amizade pelo conhecimento sensível
Pensamentos edificantes
As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas.
Rainer RilkeTenta viver em contínua vertigem apaixonada; só os apaixonados levam a cabo obras verdadeiramente duradouras e fecundas.
Miguel UnamunoOs críticos julgam as obras e não sabem que são julgados por elas.
Jean CocteauÉ preciso que um autor receba com igual modéstia os elogios e as críticas que se fazem às suas obras.
Jean de La BruyèreA censura que se pratica sobre as obras alheias não determina necessariamente a produção de obras melhores.
Bernard FontenelleTodas as obras de arte são de acesso bastante difícil. Se um leitor as julga fáceis é porque não soube penetrar no coração da obra.
André GideUM FILÓSOFO É UM HOMEM QUE VIVE, VÊ, OUVE, SUSPEITA, ESPERA E SONHA CONSTANTEMENTE COM COISAS EXTRAORDINÁRIAS, QUE FICA SURPRESO COM SUAS PRÓPRIAS IDÉIAS COMO SE VIESSEM DE FORA, DO ALTO E DEBAIXO, COMO POR UMA ESPÉCIE DE ACONTECIMENTOS E DE RAIOS DE TROVÃO QUE SÓ ELE PODE SOFRER".
Trecho de Nietzsche Além do Bem e do Mal da Coleção e Obras do Pensamento coletado por Joe Gazio"A fé sem obras é morta. Qual o proveito em dizer que tem fé mas não tem obras?"
São TiagoO boicote a obras que você não leu, não ouviu, não viu é prova do quanto você vale!
Horlando HalergiaMelhor mesmo é ter pequenos, projetos, ideais, obras e sonhos executados, do que ter grandes que só foram planejados.
RRAbreuQuem não cuida das pequenas tarefas não pode realizar grandes obras. Pense nisso... !!!
Bárbara Coré
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
História - Cultura e Pensamento
Schiller e a educação estética da humanidade
Como tantos outros escritores, intelectuais e artistas alemães do final do século XVIII, o poeta suábio Friedrich Schiller mostrou-se um entusiasta da Revolução Francesa de 1789. Considerou-a um marco da Idade da Razão. Em 1792, a Convenção Nacional em Paris chegou a dignificá-lo com o titulo de ‘cidadão honorário’. Todavia, os dramáticos e sangrentos episódios que se seguiram ao aprisionamento e a condenação do rei Luis XVI, fizeram-no refletir com mais cuidado sobre os descaminhos que Robespierre conduzia a França. Disto resultou sua hoje clássica abordagem sobre a relação entre estética e política, redigida a partir de 1793.
A questão da estética
O meio escolhido por Schiller – vivendo então em Weimar - para expor suas considerações sobre o que estava acontecendo no país vizinho foi uma série de cartas que ele começou a redigir a partir de fevereiro de 1793 – justamente na época em que o rei cativo, colocado na barra do tribunal da Convenção, fora condenado à guilhotina. Para o poeta as coisas estavam claras: a Revolução era um momento extraordinário da humanidade que infelizmente encontrara ‘um povo pequeno’ para executar o seu programa generoso e emancipador. E esta tragédia devia-se a carência de subjetividade por parte das massas francesas: a pobreza espiritual e cultural delas.
Se elas fossem dotadas de uma formação elevada, se houvesse cidadãos suficientemente instruídos na Arte Clássica e que dominassem os verdadeiros princípios dela, eles poderiam ser contidos, reprimidos e até perseguidos, mas a tirania não conseguiria governá-los como Robespierre o fazia naquele momento.
Por tanto, no entender dele, a estética entrava na ordem do dia como um poderoso componente político objetivo na formação do povo, na tarefa de fazê-lo melhor, habilitando-o a resistir aos desatinos do tirano.
E uma das suas funções seria remover-lhe o egoísmo – tão celebrado pelos economistas políticos ingleses – para educá-lo no principio da solidariedade e da compaixão (adesão a uma tese de Lessing, segundo a qual a encenação teatral, particularmente o gênero trágico, tinha como objetivo despertar a ternura e empatia do público para com os padecimentos do herói caído).
A estética, entendida de modo simplificado como a ciência do belo, começou a ser cultiva entre os filósofos e pensadores alemães a partir da publicação do livro de Alexander G. Baumgarten (falecido em 1762) intitulado Meditações Filosóficas Sobre as Questões da Obra Poética, surgido em 1738, e reafirmada em pela aparição da obra Aesthetica ( escrita entre 1750-1758), em dois tomos, a ciência que trata do conhecimento sensorial que ambiciona à apreensão do belo e se expressa nas imagens da arte, em contraposição à lógica herdada do racionalismo francês tida como ciência do saber cognitivo.
O mundo intelectual germânico da época deslumbrou-se com o novo continente especulativo que se lhe abriu pela frente. Desde então, não houve homem de letras – de Kant, Hegel, Schopenhauer a Brecht e Adorno - que não tenha ariscado um ensaio ou um erudito tratado abordando as questões da estética. (*)
Schiller, por igual, não resistiu a deixar a sua marca, que como se viu estava profundamente comprometidade pela onda de violentas emoções que vinham sem cessar da França revolucionária e em pé-de-guerra. Inspirado nos estudos que fizera da filosofia kantiana, escolheu como veículo para exposição das suas idéias um conjunto de 27 cartas que remeteu ao seu protetor o conde de Augustenburg, editadas com o titulo de Briefe über die ästhetische Erziehung des Menschen (‘Cartas sobre a educação estética da humanidade’), em 1795.
De certo modo, pode-se dizer que ele tentou contrapor ao empenho do poder do tirano, um liberticida, às virtudes educativas do grande poeta, comprometido inteiramente com a liberdade dos homens.
Estava implicito nesta especulação o papel sensivel e único desempenhado pelo artista. Ele, fosse um versador, compositor ou pintor, era o elemento fundamental que gerava os efeitos extraordinários da beleza difundindo-a junto a população, resgatando-a do maleficios do estado da natureza pura.
Procurou também distinguir-se das exigencias morais de Kant em torno do dever – que derivavam do conceito dele do kategorische Imperativ, o imperativo categórico – que Schiller entendia serem excessivamente rigidias, que lembravam mais as regras monacais do que uma boa e sensivel ordem da razão. Para tanto, suavisou as imposições do dever compondo-as com os preceitos da liberdade.
(*) O estudo da estética, palavra derivada do grego aesthesis, que significa sentimento, sencibilidade, foi percebida pelos pensadores alemães como um caminho para alcançar o conhecimento que servisse de alternativa a defendida pelos intelectuais iluminstas franceses, concentrada basicamente nas conclusões da razão.
Em busca do Estado Estético
Schiller, entretanto, estabelece quais seriam as condições básicas que fariam com que um artista realmente se transformasse num poeta de excelência, habilitado a exercer o extraordinário papel de guia para impelir as massas a transitar do Estado da Necessidade, dominado pelo dia-a-dia, pela materialidade e pelas exigências da sobrevivência mais comezinha, para a magnitude do Estado Estético (etapa que antecede o Estado Político, identificado pela plenitude da liberdade).
Satisfeitas as condições da espiritualidade, adquirindo cultura, o povo instruído jamais se curvaria frente ao despotismo (no fundo um sonho utópico dele).
O Estado Estético, por igual, teria outra finalidade: a de contrabalançar com a arte a crescente mentalidade utilitarista e mercantilista que invadia as relações sociais do seu tempo. ‘A utilidade’, escreveu ele, ‘ é o grande ídolo da época; ela exige que todas as forças lhe sejam submetidas e que todos os talentos lhe prestem homenagem’, concluindo que o mérito espiritual da arte é um tanto irrisória em meio ‘ a quermesse ruidosa do século’. (**)
Lamentava, todavia, as circunstâncias em que a maioria vivia, pois a atividade profissional fazia com que cada um tivesse apenas uma ‘formação fragmentada’, isolando-os da totalidade, fazendo do homem ‘apenas um reflexo de sua profissão, de sua ciência. Havia, por detrás de tudo, um enorme maquinismo frio de uma organização social que força todos a aceitar a lógica do rendimento econômico, provocando vidas mutiladas e ressentimento da parte daqueles que se viam excluídos das benesses culturais usufruídas pela elite. Nestas circunstâncias, era preciso ativar o estado para que ele desenvolvesse as condições que permitiram à maioria, independentemente da origem social ou da fortuna, beneficiar-se com a contemplação do belo.
(**) A citação de Marc Jimenez ‘ O que é estética’, p. 156, extraída das ‘Cartas’ de Schiller. Herbert Marcuse, muitos anos depois, no seu ‘Eros e Civilização’, de 1955, talvez com um tanto de exagero, apontou Schiller como um dos precursores do pensamento humanista de vertente iluminista que tentou antepor-se às exigências crescentes da tecnologia alienante e da lógica do capitalismo (posição que seria exacerbada pelos integrantes da Escola de Frankfurt, a partir dos anos de 1930).
Somente estaria habilitado a tal encargo – o de vir a constituir o Estado Estético - aquele que idealiza a si mesmo no momento em que se dedica à grande arte. É preciso que o artista, o poeta, o músico, se enobreça imbuído da notável incumbência que tem pela frente: a de se transformar num homem-ideal! Se não alcançar fazer isto ele certamente não irá conquistar audiência nem formar um público. Schiller abria assim, naquela sociedade de tradição feudal, marcada pela hierarquia determinada pela herança e pelo nascimento, um espaço especial para o artista que, independente da aristocracia de sangue e da nobreza de toga, formaria uma nova fidalguia empenhada em orientar os destinos estéticos da sociedade (proposta que teve aberta acolhida junto a Beethoven).
A posição dele, do artista, é excepcional na medida em que ao trabalhar com as emoções. Ao sensibilizar as platéias, tem o ‘poder de mudar o povo’. Inevitavelmente ele fracassará se não tiver a consciência desta profunda convicção dele se tornar num homem-ideal. A autovalorização (diríamos, a enorme projeção do ego) é pré-condição fundamental para o exercício da grande arte, ao tempo em que nunca o autor deve perder o horizonte de que sua obrigação maior visa o interesse e a verdade universal da humanidade.
Todos os vultos das artes, fosse um Bach ou Goethe, estavam imbuídos dos mais altos ideais humanos sem os quais não teriam atingido a excelência e a imortalidade. Portanto, insiste, o que se escreve ou se compõe visa nada menos do que o enobrecimento da humanidade.
A grande-alma
Tendo isto em vista, o vocacionado às artes deve buscar por si mesmo chegar à beleza, à verdade e ao conhecimento, fundamentalmente para tornar-se uma pessoa melhor, compassiva. A bela alma torna-se a mais feliz, ou somente vem a se realizar, quando promove o surgimento de outras almas iguais a ela, ajudando as pessoas a se aperfeiçoarem e se transformarem, visto que a grösse Kunstwerk, a Grande Tarefa da Arte, é construir a liberdade política da humanidade. (*)
A beleza por sua vez deve ser demonstrável como uma condição necessária a todos, pois ‘sem beleza nós não somos humanos’, sendo que ‘sem beleza na arte, sem beleza nas relações sociais, sem beleza na nossa alma, nós não faremos as coisas certas’. Ela é o elemento fundamental na tarefa de burilar a pedra bruta que é o ser humano em seu estado primário e natural para convertê-lo, graças ao domínio racional das pulsões, em cidadão do Estado Estético.
Passar, pois, pela experiência do belo é fundamental. Visto que ele enobrece o progresso da moralidade e, por conseguinte, o progresso da razão. Como assegurou na Carta VIII, ‘ a formação da sensibilidade’ era ‘ a necessidade mais premente da época’ porque ‘desperta para a própria melhora do conhecimento’. Schiller procurou dar um status à estética similar ao que a ética gozava junto aos iluministas, ardorosos defensores do aperfeiçoamento moral dos seres humanos.
Como exemplo da bela alma, Schiller lembrou-se do Bom Samaritano, o individuo que simplesmente promove o bem ao próximo sem ficar pensando se deve ou não fazê-lo. É a espontaneidade do gesto que a identifica não sua racionalidade.
O discurso dele afina-se, pois, com a antiga idéia grega do poeta como educador do povo, como o principal agente da Paidéia (da formação geral, educativa e cultural), responsável pelo destino da nação a que pertence e como emancipador da humanidade como um todo. Otto Maria Carpeaux afirmou que Schiller teve na Alemanha o mesmo papel que Jean Jacques Rousseau assumira na França do seu tempo: educar e formar o novo cidadão que emergia por influência do Século das Luzes. Tornaram-se os pedagogos dos seus respectivos povos, sendo que seus conselhos, suas frases e ditos foram sempre repetidos no intento de instituir uma moral cívica em consonância com um momento histórico que se afinava com a tolerância religiosa e o liberalismo filosófico. Ambos foram pensadores anti-dogmáticos que procuraram ilustrar seus concidadãos para uma outra era, livre das ingerências do clero e do despotismo dos grandes.
(*) Anteriormente às Cartas sobre a estética, Schiller já havia composto um longo poema intitulado Die Kunstler, O Artista, de 1787, para demonstrar o notável papel civilizador que a arte exerce.
Bibliografia
Carpeaux, Otto Maria – História da Literatura Ocidental.
Kant, I. - Crítica da faculdade de juízo. São Paulo: Forense, 2005
Ludwig, Emil – Goethe. Porto Alegre: Editora Globo, 1949, 2 vols.
Lukács, Geörgy. Estética 1 – La pecularidad de lo estético. Barcelona: Ediciones
Grijaldo, 1982.
Martin, Nicholas – Nietzsche and Schiller: untimely aesthetics. Oxford University Press, 1996.
Schiller, F. – Cartas sobre a educação estética da humanidade. São Paulo: EPU, 1991.
Zepp-LaRouche, Helga- Political revolution requires aesthetic education of man. Instituto Schiller.
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2009/11/27/000.htm
Como tantos outros escritores, intelectuais e artistas alemães do final do século XVIII, o poeta suábio Friedrich Schiller mostrou-se um entusiasta da Revolução Francesa de 1789. Considerou-a um marco da Idade da Razão. Em 1792, a Convenção Nacional em Paris chegou a dignificá-lo com o titulo de ‘cidadão honorário’. Todavia, os dramáticos e sangrentos episódios que se seguiram ao aprisionamento e a condenação do rei Luis XVI, fizeram-no refletir com mais cuidado sobre os descaminhos que Robespierre conduzia a França. Disto resultou sua hoje clássica abordagem sobre a relação entre estética e política, redigida a partir de 1793.
A questão da estética
O meio escolhido por Schiller – vivendo então em Weimar - para expor suas considerações sobre o que estava acontecendo no país vizinho foi uma série de cartas que ele começou a redigir a partir de fevereiro de 1793 – justamente na época em que o rei cativo, colocado na barra do tribunal da Convenção, fora condenado à guilhotina. Para o poeta as coisas estavam claras: a Revolução era um momento extraordinário da humanidade que infelizmente encontrara ‘um povo pequeno’ para executar o seu programa generoso e emancipador. E esta tragédia devia-se a carência de subjetividade por parte das massas francesas: a pobreza espiritual e cultural delas.
Se elas fossem dotadas de uma formação elevada, se houvesse cidadãos suficientemente instruídos na Arte Clássica e que dominassem os verdadeiros princípios dela, eles poderiam ser contidos, reprimidos e até perseguidos, mas a tirania não conseguiria governá-los como Robespierre o fazia naquele momento.
Por tanto, no entender dele, a estética entrava na ordem do dia como um poderoso componente político objetivo na formação do povo, na tarefa de fazê-lo melhor, habilitando-o a resistir aos desatinos do tirano.
E uma das suas funções seria remover-lhe o egoísmo – tão celebrado pelos economistas políticos ingleses – para educá-lo no principio da solidariedade e da compaixão (adesão a uma tese de Lessing, segundo a qual a encenação teatral, particularmente o gênero trágico, tinha como objetivo despertar a ternura e empatia do público para com os padecimentos do herói caído).
A estética
| Friedrich Schiller (1759-1805) |
O mundo intelectual germânico da época deslumbrou-se com o novo continente especulativo que se lhe abriu pela frente. Desde então, não houve homem de letras – de Kant, Hegel, Schopenhauer a Brecht e Adorno - que não tenha ariscado um ensaio ou um erudito tratado abordando as questões da estética. (*)
Schiller, por igual, não resistiu a deixar a sua marca, que como se viu estava profundamente comprometidade pela onda de violentas emoções que vinham sem cessar da França revolucionária e em pé-de-guerra. Inspirado nos estudos que fizera da filosofia kantiana, escolheu como veículo para exposição das suas idéias um conjunto de 27 cartas que remeteu ao seu protetor o conde de Augustenburg, editadas com o titulo de Briefe über die ästhetische Erziehung des Menschen (‘Cartas sobre a educação estética da humanidade’), em 1795.
De certo modo, pode-se dizer que ele tentou contrapor ao empenho do poder do tirano, um liberticida, às virtudes educativas do grande poeta, comprometido inteiramente com a liberdade dos homens.
Estava implicito nesta especulação o papel sensivel e único desempenhado pelo artista. Ele, fosse um versador, compositor ou pintor, era o elemento fundamental que gerava os efeitos extraordinários da beleza difundindo-a junto a população, resgatando-a do maleficios do estado da natureza pura.
Procurou também distinguir-se das exigencias morais de Kant em torno do dever – que derivavam do conceito dele do kategorische Imperativ, o imperativo categórico – que Schiller entendia serem excessivamente rigidias, que lembravam mais as regras monacais do que uma boa e sensivel ordem da razão. Para tanto, suavisou as imposições do dever compondo-as com os preceitos da liberdade.
(*) O estudo da estética, palavra derivada do grego aesthesis, que significa sentimento, sencibilidade, foi percebida pelos pensadores alemães como um caminho para alcançar o conhecimento que servisse de alternativa a defendida pelos intelectuais iluminstas franceses, concentrada basicamente nas conclusões da razão.
Em busca do Estado Estético
Schiller, entretanto, estabelece quais seriam as condições básicas que fariam com que um artista realmente se transformasse num poeta de excelência, habilitado a exercer o extraordinário papel de guia para impelir as massas a transitar do Estado da Necessidade, dominado pelo dia-a-dia, pela materialidade e pelas exigências da sobrevivência mais comezinha, para a magnitude do Estado Estético (etapa que antecede o Estado Político, identificado pela plenitude da liberdade).
Satisfeitas as condições da espiritualidade, adquirindo cultura, o povo instruído jamais se curvaria frente ao despotismo (no fundo um sonho utópico dele).
O Estado Estético, por igual, teria outra finalidade: a de contrabalançar com a arte a crescente mentalidade utilitarista e mercantilista que invadia as relações sociais do seu tempo. ‘A utilidade’, escreveu ele, ‘ é o grande ídolo da época; ela exige que todas as forças lhe sejam submetidas e que todos os talentos lhe prestem homenagem’, concluindo que o mérito espiritual da arte é um tanto irrisória em meio ‘ a quermesse ruidosa do século’. (**)
Lamentava, todavia, as circunstâncias em que a maioria vivia, pois a atividade profissional fazia com que cada um tivesse apenas uma ‘formação fragmentada’, isolando-os da totalidade, fazendo do homem ‘apenas um reflexo de sua profissão, de sua ciência. Havia, por detrás de tudo, um enorme maquinismo frio de uma organização social que força todos a aceitar a lógica do rendimento econômico, provocando vidas mutiladas e ressentimento da parte daqueles que se viam excluídos das benesses culturais usufruídas pela elite. Nestas circunstâncias, era preciso ativar o estado para que ele desenvolvesse as condições que permitiram à maioria, independentemente da origem social ou da fortuna, beneficiar-se com a contemplação do belo.
(**) A citação de Marc Jimenez ‘ O que é estética’, p. 156, extraída das ‘Cartas’ de Schiller. Herbert Marcuse, muitos anos depois, no seu ‘Eros e Civilização’, de 1955, talvez com um tanto de exagero, apontou Schiller como um dos precursores do pensamento humanista de vertente iluminista que tentou antepor-se às exigências crescentes da tecnologia alienante e da lógica do capitalismo (posição que seria exacerbada pelos integrantes da Escola de Frankfurt, a partir dos anos de 1930).
Idealizar a si mesmo
| Beethoven, artista consciente da sua importância |
A posição dele, do artista, é excepcional na medida em que ao trabalhar com as emoções. Ao sensibilizar as platéias, tem o ‘poder de mudar o povo’. Inevitavelmente ele fracassará se não tiver a consciência desta profunda convicção dele se tornar num homem-ideal. A autovalorização (diríamos, a enorme projeção do ego) é pré-condição fundamental para o exercício da grande arte, ao tempo em que nunca o autor deve perder o horizonte de que sua obrigação maior visa o interesse e a verdade universal da humanidade.
Todos os vultos das artes, fosse um Bach ou Goethe, estavam imbuídos dos mais altos ideais humanos sem os quais não teriam atingido a excelência e a imortalidade. Portanto, insiste, o que se escreve ou se compõe visa nada menos do que o enobrecimento da humanidade.
A grande-alma
Tendo isto em vista, o vocacionado às artes deve buscar por si mesmo chegar à beleza, à verdade e ao conhecimento, fundamentalmente para tornar-se uma pessoa melhor, compassiva. A bela alma torna-se a mais feliz, ou somente vem a se realizar, quando promove o surgimento de outras almas iguais a ela, ajudando as pessoas a se aperfeiçoarem e se transformarem, visto que a grösse Kunstwerk, a Grande Tarefa da Arte, é construir a liberdade política da humanidade. (*)
A beleza por sua vez deve ser demonstrável como uma condição necessária a todos, pois ‘sem beleza nós não somos humanos’, sendo que ‘sem beleza na arte, sem beleza nas relações sociais, sem beleza na nossa alma, nós não faremos as coisas certas’. Ela é o elemento fundamental na tarefa de burilar a pedra bruta que é o ser humano em seu estado primário e natural para convertê-lo, graças ao domínio racional das pulsões, em cidadão do Estado Estético.
Passar, pois, pela experiência do belo é fundamental. Visto que ele enobrece o progresso da moralidade e, por conseguinte, o progresso da razão. Como assegurou na Carta VIII, ‘ a formação da sensibilidade’ era ‘ a necessidade mais premente da época’ porque ‘desperta para a própria melhora do conhecimento’. Schiller procurou dar um status à estética similar ao que a ética gozava junto aos iluministas, ardorosos defensores do aperfeiçoamento moral dos seres humanos.
Como exemplo da bela alma, Schiller lembrou-se do Bom Samaritano, o individuo que simplesmente promove o bem ao próximo sem ficar pensando se deve ou não fazê-lo. É a espontaneidade do gesto que a identifica não sua racionalidade.
Paidéia
| Estátua de Schiller, o poeta como educador do povo |
(*) Anteriormente às Cartas sobre a estética, Schiller já havia composto um longo poema intitulado Die Kunstler, O Artista, de 1787, para demonstrar o notável papel civilizador que a arte exerce.
Bibliografia
Carpeaux, Otto Maria – História da Literatura Ocidental.
Kant, I. - Crítica da faculdade de juízo. São Paulo: Forense, 2005
Ludwig, Emil – Goethe. Porto Alegre: Editora Globo, 1949, 2 vols.
Lukács, Geörgy. Estética 1 – La pecularidad de lo estético. Barcelona: Ediciones
Grijaldo, 1982.
Martin, Nicholas – Nietzsche and Schiller: untimely aesthetics. Oxford University Press, 1996.
Schiller, F. – Cartas sobre a educação estética da humanidade. São Paulo: EPU, 1991.
Zepp-LaRouche, Helga- Political revolution requires aesthetic education of man. Instituto Schiller.
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/cultura/2009/11/27/000.htm
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Sou do Povo do Mar vivo a navegar
Sou do povo do mar vivo a navegar
Se vem do céu ou do mar aponte
São tantas estrelas do povo do mar
Se vem do céu ou do mar aponte
São tantas estrelas do povo do mar
Bendito de São Benedito
São Benedito bendito
São Benedito é santo padroeiro
São Benedito é santo protetor
São Benedito é o mais brasileiro
Dos santos que a história criou
Bendito seja o teu nome na terra
Pois bendito ele já é lá no céu
Benedito vem dissolver a guerra
Promovida por um povo cruel
Nossa senhora rainha da paz
Nossa senhora madrinha de luz
Nos abençoa e nos torna capaz
Nos orienta, ilumina e conduz
Teu semblante luminoso me traz
Doce lembrança amável de Jesus.
Brayner Feijó Brenas
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